segunda-feira, 16 de março de 2009

PILARES DO CINEMA DEMAUÁ

A origem do cinema e do cineclube na região do ABC paulista, vistos de Mauá.


Diomedio Piskator

Mauá teve cinema antes mesmo de ser Mauá. Lá por volta de 1920 é a data de surgimento das atividades cinematográficas em Mauá com a criação do Cine Ideal, cujo proprietário Isaltino Celestino dos Santos exibia filmes aos sábados e domingos, em uma casa na atual rua Victorino Dell’Antonia. Não dava retorno financeiro, e por isso o proprietário solicitou isenção de impostos à Prefeitura de São Bernardo do Campo. Porém, por volta de 1927, o Cine Ideal fechou suas portas.

Criado em 1937, o cine OPA, nome adotado em alusão aos seus mantenedores Orfeu Ferrari, e os irmãos Pedro e Armando Scilla, funcionou no salão da A A Industrial, onde aos domingos eram projetados filmes, tais como “Bem Hur” e “Concunda de Notre Dame”, entre outros e encerrou suas atividades em 1942. É interessante observarmos que os filmes tinham suas sonoridades adaptadas por músicos, entre os quais a violinista Ida Scilla.

Já no ano de 1940, por iniciativa do Padre Antonio Negri, então responsável pela Capela Nossa Senhora Imaculada Conceição, atual Igreja Matriz de Mauá, funcionou no salão da igreja o “Cineminha do Padre”. Na época, além de proporcionar lazer e cultura aos fiéis, o pároco objetivava, com a cobrança de ingressos, arrecadar fundos para a edificação do templo religioso. No final desta década, o senhor Orlando projetava filmes de 16mm no muro diante de sua casa, à rua Ruy Barbosa. Sabe-se que ele iniciou a produção de um filme, mas não chegou a terminá-lo.

Inaugurado em 27 de agosto de 1949, o Cine Canta Cecília; empreendimento de Antonio Milanezi e Cecília Cecon Milanezi foi, na verdade, o primeiro cinema de Mauá que funcionou em prédio próprio e com maquinário adequado. Em suas instalações, situadas na avenida Barão de Mauá, 449, atual agencia do Banco do Brasil, acomodavam-se 1396 expectadores, em poltronas fixas de madeira e assento móvel. Carmem Miranda e Oscarito eram astros dos filmes nacionais com maior público. Já os filmes estrangeiros garantiam sessões lotadas com diferentes faroestes e o épico “E o Vento levou”. Além de filmes, as instalações do Cine Santa Cecília recebiam famosos artistas da Rádio Nacional, liderados por Ivon Cury, Hebe Camargo e Mazzaropi, entre outros. Apesar do sucesso, o Cine Santa Cecília encerrou suas atividades em 1969. Dois anos depois de seu fechamento, Sylvio, Mário e Flora Milanezi, filhos de Cecília e Antonio, criaram o cine Symaflor, na mesma avenida, com 1400 lugares e, na sala de espera, um painel de 35 metros quadrados, pintado pelo cenógrafo e publicitario Paulo Domingos Tachinardi, contando a História do Cinema e a História da Porcelana. O Symaflor funcionou até 1989.

No ano do plebiscito, 1953, em que Mauá se tornou emancipada, os irmãos Hans e Wolfgan Gerber, alemães recém estabelecidos na cidade, registraram cenas do cotidiano local, por meio de uma pequena filmadora de 8mm, cujas imagens reproduziam à população. Pioneiros nessa arte, foram os responsáveis pelas imagens antigas da cidade, organizadas no filme denominado “Mauá em Marcha”. Também rodaram o filme “Comícios e Pedreiras”, entre outros, realizados em 16mm. O Monsenhor Alexandre Venâncio Árminas passou a exibir, no interior da Igreja Matriz, filmes de caráter religioso, como “A Paixão de Cristo”, em 1964.

Inaugurado em 1998, o Cinema do Greenm Plaza Shopping, no mesmo endereço do Symaflor, mas ocupando apenas um terço do antigo prédio, funcionou até 2000.

Mauá entra na era dos cinemas múltiplos com a inauguração do Multiplex Mauá, dentro do Mauá Plaza Shopping, com 5 salas, no dia 6 de setembro de 2002.

No Museu Cultural da Estância Santa Luzia, na Estrada Nossa Senhora do Pilar, pode-se ver, numa sala com 70 lugares, filmes colecionados por Atílio Santarelli, filho do primeiro administrador do Cine Santa Cecília e principal fonte de informações sobre a história de cinema de Mauá.

A partir de 2006, os alunos do Curso de Roteiro Cinematográfico – O Roteiro Sem Segredo, curso este, lecionado por mim, reuniram-se para ver filmes e discutir linguagens, estéticas, e outros tópicos abordados no curso, sentiram a necessidade de fundar um Cineclube, para dar continuidade a essa atividade. Nasce assim o Cineclube Pilar de Mauá, que funcionou no Auditório Dr Vicente de Carvalho Bruno, de 80 lugares, no Paço Municipal, com sessões regulares aos sábados, às 19 horas, passando posteriormente a exibir filmes às sextas-feiras na Biblioteca Municipal Cecília Meireles e, agora o cineclube é intinerante, sendo que cada sessão é realizada numa região da periferia da cidade. O núcleo responsável pela condução do cineclube cresceu e ampliou suas atividades, realizando mostras e ciclos como “O Cinema de João Batista de Andrade”, e apresentando filmes de realizadores independentes e de jovens cineastas do interior paulista, de filmes produzidos por cineclubes e cineclubistas de todo o Brasil, assim como longas-metragens independentes, sempre seguidos de palestras com cineastas, professores e pesquisadores de cinema e personalidades da área cultural.

Foi um passo para o núcleo fundar a Associação Cineclube Pilar de Mauá, cujo objetivo primordial é administrar o cineclube, organizar a Mostra Grande ABC Filme Festival, dando continuidade à 1 Mostra Popular do Audiovisual de Mauá, dentre outras atividades de estudos cinematográficos, vindo a fortalecer o movimento já existente no Grande ABC, de que são exemplos o Cineclube Jairo Ferreira, de São Caetano do Sul, os Cinema Digital e Assunção Hernandes, de Diadema, entre outros, que resgata a tradição cinematográfica da região, berço da Companhia Cinematográfica Vera Cruz e terra de cineastas pioneiros, como Aron Feldman e os já citados irmãos Gerber, de onde já vimos surgir uma nova geração de cineastas nessa última década, tendo a frente Paulo Sacramento.
A origem do cinema e do cineclube na região do ABC paulista, vistos de Mauá.

2 comentários:

  1. Muito bom esse texto sobre os pilares do Cinema em Mauá, faltou apenas citar um movimento de produção de curtas-metragens entre 2003/2004 que produziram nada menos que 29 curtas-metragens em vídeo, estando entre eles o curta "DECLARAÇÃO" do próprio Alexandre Soares que será exibido dia 23 de maio no programa Zoom, da TV cultura.

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  2. Olá,
    Estou procurando o Diomédio Piskator, preciso falar com ele
    João Batista de Andrade
    jotabea@terra.com.br

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